Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Este não foi propriamente um ano em que tenha ido muito ao cinema, ou sequer visto muitos filmes, mas a escolha para mim é mesmo simples. Os Maias, de João Botelho. Já falei disso aqui. Da perfeição do elenco, da atualidade da obra, do guião que é a escrita de Eça, da inteligência do realizador ao utilizar os poucos recursos a seu favor, pintando uma Lisboa surreal, em que todos ostentam e se arrogam, mas que formam uma sociedade frágil e decadente. Tudo isto me faz escolher Os Maias, mas a principal razão é outra. Eça de Queirós é um dos maiores escritores portugueses de todos os tempos, não só pela sua literatura crítica e interventiva, com descrição minuciosa e visualismo cuidado, histórias complexas e intrincadas, expoente máximo da corrente realista, mas, também por a sua obra se manter, ainda que tristemente para todos nós, atual, com um país que continua a reboque das grandes potências europeias, com pessoas que continuam a viver de aparências e ilusões e que (e aqui, penso, a tendência começa a inverter-se) com uma cultura estrangeirista, que apenas valoriza o que há fora, com absoluto desvalor do que é nosso. Ainda que o filme não possa, de forma alguma, substituir a leitura do livro, Botelho trouxe Eça ao grande público e não o fez de qualquer forma, mas com a mestria, o realismo e a justeza que um dos maiores clássicos da literatura portuguesa merece.

d7cf0d085f4239da35a69950a918abcbcb64a5.jpg

publicado às 12:40

Coscuvilhices

21.10.14

A Fnac disse ao DN que me disse a mim que as vendas de Os Maias subiram 43% desde a estreia do filme homónimo. Like nisso.

publicado às 08:58

Recortes do Sapo

22.09.14

Depois de ter abdicado de toda a minha política de tags (isto é assim, se não podes vencê-los, junta-te a eles), o Sapinho achou que eu merecia um incentivozinho e deu-me este recorte:

O post em causa encontra-se aqui e espero que traga muita gente, para depois os levar a ver o filme e, quem sabe, a (re)ler Os Maias.

publicado às 18:28

No Verão que marcou a passagem do meu 11º para o 12º ano, deu na televisão uma série brasileira que adaptava Os Maias. Como nessa altura a obra queirosiana integrava o programa do 12º, fiz de tudo para ver o máximo de episódios. Vi ainda uma boa parte, mas depois, coisa mais chata, fui de férias e não vi o final. Mais tarde, quando li o livro, achei que a série se centrava muito na história amorosa, o que faz com que, ainda hoje, aqueles sejam para mim os rostos de Maria Monforte, Pedro, Carlos e Maria Eduarda da Maia. 

 

Agora no cinema, a obra foi, naturalmente, mais condensada, mas tem uma característica que a adaptação televisiva não tinha, pelo menos de forma tão vincada: a crítica social. Está lá tudo e, ainda que só quem leu verdadeiramente a obra prima de Eça possa perceber inteiramente a sua dimensão, a crítica é percetível mesmo ao mais distraído dos espetadores: um Portugal descaracterizado de si próprio, provinciano e a viver acima das suas possibilidades. Na verdade, tal intenção, e não apenas a de contar os amores incestuosos de Carlos da Maia e Maria Eduarda, é visivel, desde logo, na adoção não só do título, como também do subtítulo da obra: Os Maias - Cenas da Vida Romântica. Se no que toca ao texto não houve grandes trabalhos - é o de Eça, sem tirar nem pôr, no seu estilo inconfundível - nos cenários exteriores o realizador deixa a sua marca, ao torná-los muito irreais em contraste com os interiores, o que contribui para a dimensão dramática e a demonstração da fragilidade da sociedade lisboeta. 

 

O elenco também merece destaque, em especial o ator Pedro Inês, pela sua interpretação de João da Ega. E, claro, João Botelho, por trazer ao grande público uma das obras maiores da literatura portuguesa, sem perder a visão do autor, mas sem deixar de lhe dar um cunho próprio. É desta cultura - aquela que preserva a própria cultura - que o país tem falta.

Carlos da Maia (Graciano Dias) e Maria Eduarda (Maria Flor).

Carlos da Maia (Graciano Dias) e João da Ega (Pedro Inês).

Afonso da Maia (João Perry) com o seu gato, Reverendo Bonifácio.

O cenários da Lisboa oitocentista.

publicado às 19:42


Joana

foto do autor


Neste mar

Sobre tudo e sobre nada. História e política. Brincadeiras e aventuras. Literatura e cinema. Trivialidades e assuntos sérios. Arte e lusofonia. Dia-a-dia e intemporalidade. E, claro, um blogue com sotaque do norte.