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- Gosto muito da sua camisola, professora. É mesmo bonita.

- Obrigada!

- Hoje é o E. que vem buscá-la?

- Não sei!

- Não sabe?

- Não. Nunca sei com antecedência se ele vem buscar-me ou não.

- Ahh! Então é por isso que vem sempre bonita.

 

publicado às 15:24

Thanksgiving

27.11.14

Hoje é dia de Ação de Graças nos Estados Unidos e, como gosto sempre de ensinar não só a língua, mas também a cultura, vou tentar explicar esta festividade aos meus pinguins de forma que não me olhem com cara de enfado. E vamos fazer uma espécie de peru como este:

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 Durante a minha pesquisa, encontrei esta imagem e, como diz a voz da rádio, "vale apena pensar nisso".

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publicado às 09:18

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Amanhã é dia de Halloween e, mal se aproxima esta data, os miudos só me falam disso. Uma tradição britânica que eles cresceram a ver nos filmes e a ler nos livros e que cá já se vai vendo um pouco. Fazem-me muitas perguntas. Às vezes acho que eles pensam que eu vivi ou nasci lá. Acham que conheço todos os detalhes e todos os lugares. Pedem-me também desenhos, sopas de letras, palavras cruzadas. Pois bem, hoje tinha umas horas livres e fiz-lhes a vontade. Depois de fazerem os trabalhos de casa, lá os deixei pintar os desenhos e fazer recortes de morcegos, gatos e fatasmas que eu ia desenhando numa cartolina preta. A seguir, cortesia deste tempo doido, deixámos que viessem para o jardim brincar. Com o inverno a chegar, essa possibilidade vai ser cada vez menor e, nestas idades, brincar também é importante. No fim, colámos os desenhos e os recortes na parede. 

 

São miúdos que passam muito tempo ali connosco. Estudam e fazem os trabalhos da escola, mas trazem outras dúvidas e perguntas. Contam pequenos detalhes das  suas vidas. Colocam-me os seus pequenos dramas, como se é normal ter medo de andar de avião ou o que responder ao colega de carteira chato. Também fazem perguntas sobre mim: onde moro, se tenho namorado e, muito frequentemente, se quero ir viver para Inglaterra. Às vezes, sobretudo as meninas, pedem para se sentar no meu colo. Alguns têm vidas complicadas, mas ali a correrem, todos misturados, às gargalhadas... acho que, quando forem grandes, se vão recordar destes momentos como um pedaço de uma infância feliz.

publicado às 19:58

Conversa entre duas meninas:

- Sabes, a Diretora de Turma explicou hoje que vamos ter aulas sobre aquilo.

- Aquilo?

- Sim, tu sabes: aquilo!

- Não estou a perceber.

(Eu ri-me.)

- Vês? A professora já percebeu.

- Mas eu não. O quê?

- (Revira os olhos) Professora, posso dizer o nome?

publicado às 09:29

Quis ler o dito trabalho sobre orientações sexuais e a minha T. escreveu assim: Os homossexuais são, muitas vezes, discriminados pela sociedade e até pelos seus familiares (…) mas não posso concordar com esta atitude, pois penso que as pessoas devem ter liberdade de serem quem são e procurarem ser felizes, sem se sentirem discriminadas pelos outros.

 

Será que posso acreditar que um bocadinho disto é meu? Posso?

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publicado às 10:01

Ter uma irmã de 14 anos normalmente é fonte de muitas tropelias, brincadeiras, peripécias e comédias, mas hoje não é um desses dias. A T. esteve a contar-me que, já no ano letivo passado, estiveram a falar, na disciplina de Escola e cidadania, sobre orientação sexual e que, como trabalho de casa, tinham que elaborar um texto sobre o assunto. Tenho algumas dificuldades em perceber este trabalho, mas penso que o objetivo era obrigá-los a pensar sobre o que ouviram na aula e sobre o debate (ou balburdia) que se seguiu. Converso com a T. sobre essa aula e eis que ela me diz que boa parte da turma é “contra os homossexuais”. Contra? Oi? Como se isso fosse sequer possível! É como ser contra a escola ou o sol. Fiquei desanimada! Tão jovens e já homofóbicos, discriminadores, formatados. Não percebo, a sério que não. Há alguma coisa de muito errada aqui e, por muitos fatores que considere, nunca consigo desconsiderar os agentes educadores.

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publicado às 21:38

Humor T. #7

14.10.14

Ontem, acabadinha de entrar em casa, ainda de casaco, carteira e guarda-chuva:

- Joana, anda aqui! Preciso de ajuda!

(Entro na sala.)

- Sim?

- Explica-me o que foi a Conferência de Berlim.

- Porque partes do pressuposto que eu sei isso?

(...)

- Porque és uma croma.

publicado às 08:50

Enquanto explicadora, eu sou a leveza em pessoa. Já me aconteceu de tudo, desde as tradicionais birras a miúdos a imitarem ovelhas (porque achavam que eu não sabia como são). Eu encaro! Tenho esta teoria que, se eles já não gostam da disciplina, gostarem de mim só pode ajudar. Já acabei o ano letivo com miúdos a contarem-me os seus enganos amorosos, problemas em casa, na escola ou dilemas no geral. Até já recebi emails a dizerem que têm saudades das nossas conversas. Sou aquela professora que os alunos que não tenho, sobretudo os mais pequenos, vêm falar só porque sim. Obviamente que lhes ralho se não fazem os trabalhos ou se andam sempre a brincar, mas isso não me tira do sério. Aborrece-me e, como normalmente sou tão mais sorridente, eles ficam, na maioria, a sentirem-se mal por me porem assim. A única coisa que não tolero de todo é falta de educação. Aconteceu ontem e tive um surto nervoso tal que, depois de pôr o miúdo de castigo, entro na sala e dou com cinco pares de olhos ansiosos. Uma delas lá verbaliza:

 

- Professora, estás a sentir-te bem?

publicado às 09:29

Cenário que envolve miúdo reguila:

 

- Já reparaste que ali as meninas têm a mesma idade que tu, estão no mesmo ano e portam-se muito melhor, fazem os trabalhos sem reclamar e não incomodam os outros?

- Mas isso é porque elas são raparigas, professora.

publicado às 12:56

Palavras doces

25.09.14

No que toca a a ensinar, não consigo escolher entre anos escolares mais avançados ou os mais iniciais. Os anos superiores são muito mais aliciantes e desafiantes, sobretudo no que toca à escrita e à literatura, mas ter explicandos mais novos têm estas vantagens:

 

(Cenário com três alunas - vamos chamar-lhes A, B e C, que não quero chatices - em que só duas estão sala.)

A - Professora, podes abrir os olhos?

Eu - estão abertos.

A - Mas mais!

(Lá arregalei os olhos, mas ela não disse mais nada.)

Eu - Então, o que têm?

A - São mesmo giros!

(Antes de eu ter tempo de responder, entra a aluna C.)

C - Professora, hoje ainda não te tinha dado um abraço! (Abraça-me) E gosto tanto da tua camisola. Gosto de todas as tuas camisolas, estás sempre gira!

Eu - Obrigada! Tu também estás sempre gira!

B - O que eu mais gosto é do penteado. É sempre giro!

Eu - Obrigada, mas esse é sempre o mesmo.

B - Pois, sempre giro! Nunca engana!

 

Quando alguém encontrar a minha autoestima, é favor mandá-la para casa. Estava a ficar tão grande que decidiu ir dar uma volta para voltar à realidade.

publicado às 13:11


Joana

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Neste mar

Sobre tudo e sobre nada. História e política. Brincadeiras e aventuras. Literatura e cinema. Trivialidades e assuntos sérios. Arte e lusofonia. Dia-a-dia e intemporalidade. E, claro, um blogue com sotaque do norte.