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Quando escrevi este post sobre a exploração de crianças por uma marca multinacional, referi num dos comentários que acordei recentemente para essa realidade graças a uma fotorreportagem que mudou a minha perspetiva e, em certa medida, até os meus hábitos de consumo. Michael Wolf, um fotógrafo alemão, há cerca de dois anos, realizou uma visita a cinco fábricas de brinquedos na China com o objetivo de documentar as condições de trabalho dos seus trabalhadores. As fotos foram expostas na Califórnia, num espaço cujas paredes se encontravam forradas de brinquedos.

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As imagens não são tão chocantes como se estaria à espera. O que mais choca é a história por trás dessas imagens. Da China sai cerca de 75% da produção mundial de brinquedos. A maioria dos seus trabalhadores vem de pequenas aldeias rurais. Na China isso significa, de acordo com a lei restritiva da migração – hukou – que não foi alterada com a transição para uma economia de mercado, que os direitos sociais estão ligados ao local de nascimento, ou seja, são perdidos com a deslocação para as grandes cidades. Como é natural, os trabalhadores fazem isto à procura de melhores condições de vida. Não é isso que encontram! São alojados em dormitórios sobrelotados, onde muitas vezes há apenas uma casa de banho para cada 50 pessoas. A jornada de trabalho é longa, monótona e perigosa (só em 2009 foram contabilizados cerca de 1 milhão de acidentes industriais em fábricas chinesas). Os trabalhadores não estão protegidos contra os perigos dos materiais que manuseiam e não têm formação adequada. O tempo de almoço é de apenas 30 minutos e existem duas a três assembleias de trabalhadores obrigatórias todos os dias e que não são contabilizadas no horário de trabalho. Não há contratos, nem lhes são assegurados direitos laborais básicos. Por exemplo, às mulheres não é dada licença de maternidade, não há lugar a remuneração em caso de baixa médica e a limpeza é feita pelos próprios trabalhadores como medida disciplinar. Não podem falar uns com os outros e muitas vezes adormecem nas curtas pausas que têm. Acresce ainda o facto de serem mal pagos e fazerem horas extraordinárias que chegam a dobrar o horário de trabalho, esforço esse que não se reflete no pagamento. A administração das fábricas não está minimamente preocupada com os trabalhadores, que por seu lado não conhecem os seus direitos e acreditam mesmo que estão a trabalhar por um futuro melhor. O governo fecha os olhos.

 

E ficamos assim! Só com imagens e factos gerais e sem considerações pessoais. Para quem quiser conhecer melhor a vida destes trabalhadores enquanto fazem os brinquedos do mundo, que provavelmente nunca conseguirão adquirir, pode ver a fotorreportagem completa aqui.

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publicado às 19:51


Joana

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Neste mar

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